
Entre muitas mensagens que recebemos em nossa caixa de e-mail, há alguns meses tive a grata surpresa de receber uma mensagem que há tempos queria comentar aqui, mas sempre com a desculpa de achar um gancho, salvei nos meus arquivos pessoais e deixei de stand by.
Pois é, a hora chegou. Não posso dizer que foi a melhor hora, porque ela surgiu em meio a despedidas e da perda de uma criaturinha querida e amada da minha vida. Nesta semana perdi a minha amada Hannah, minha companheirinha de 13 anos. O texto reproduzo ao final, enquanto isso, me permito a um pouco de história.
A nossa vida é feita de um eterno vaivém de pessoas, de ensinamentos, de fatos importantes e para mim, especialmente, de criaturinhas que são dádivas criadas por Deus para dar alegria e amor, e foi assim com tantos animais de estimação que amei e amo ao longo de minha vida. E com a Hanninha não podia ser diferente. Ela deixou marcas. Marcas profundas de amor e de carinho por um olhar apaixonante (diga-se de passagem, gigante em alguns momentos) que pedia somente que eu a olhasse com os olhos d´alma e a amasse incondicionalmente.
Para quem não entende o amor e a predileção por animais, devem estar achando tudo isso uma bobagem sem fim, mas isso não me importa mais, de há muito tempo aprendi que na vida, muitas de nossas ações não são compreendidas mesmo.
Mas para quem durante mais de uma década amou e foi amada, sabe que a dor da perda é imensa. Fica um vazio. Tudo fica sem gosto, sem graça e sem cor.
Em nossa vida muitas pessoas passam por nós e deixam marcas. Algumas nós nem sabemos como é que chegam a nossas vidas e quando percebemos, o coração já está preenchido. E tem sido assim ao longo de minha vida. Muitos vieram, muitos passaram, muitas marcas foram deixadas.
Já disse muitos “adeus, até um dia”, “até breve”, “se cuida”, “volto já” e a ”gente se vê em breve”. Muitos eu tenho a certeza de que verei mesmo, que é um até logo mesmo não importa o tempo que passe; já outros não posso afirmar com certeza, mas acredito que um dia a gente se esbarra em algum lugar.
E por coincidência da vida, esta semana tive que me despedir por duas vezes. Um foi um até breve doído, com gosto amargo de saudade, pois tive a certeza de que a nossa luta foi em vão. Sofri e ainda sofro. Mas aqui fica registrado o quanto te amo e irei te amar. “Nani, minha Valeriano legítima. Você vai deixar saudade. Vou te levar para sempre em meu coração assim como o Bibi, Heitor, Ruth, Charlie, Ricky, Helena, Ligeirinho, Kissy, Natara, Tonico, e tantos lindos e lindas que por aqui passaram ”. Agora vou cuidar do seu bebê, o meu amadinho e nosso dengosíssimo Vitinho.
A segunda despedida tem um gosto diferente, ficou a tristeza de impotência por não poder fazer mais por esta pessoa, mas a vontade e a torcida ao dizer “Se cuida, vai dar tudo certo. Juízo”. Coisas de irmã mais velha. Não tem jeito… Se não der certo, ou melhor, se não correr do jeito esperado, lembra que aqui tem um colo e volte correndo! O amor é muito grande e surgiu destes esbarrões que a vida proporciona e por enquanto, não entendemos o porquê. E lá vai mais uma frase típica: “A gente se vê e use camisinha. Juízo e que Deus o ilumine!”.
E hoje, véspera do dia das mães deixo aqui registrado a saudade – saudade maior – pelo meu amor maior de toda esta vida e de outras. O amor da minha vida me deixou há anos.
Netinha te amo muito e para sempre, sempre. E se soubesse cantarolar, agora seria a hora de lembrar a música “Só você” de Vinicius Cantuária que ela dizia que era a minha cara: “Demorei muito pra te encontrar. Agora eu quero só você. Teu jeito todo especial de ser…”
Linda música, linda mãe, linda mulher e lindo espírito de luz que se colocou na minha vida. “Que seu caminho seja luz por onde passar. Que leve alegria e amor. Que leve consolo. Que leve você”. Amo!
Já que estou falando de saudade: Saudades da Vivox, Ju, Vó, Tios e Tias, Vera, Cris…amigos e de cada momento com todos. Tanta e tanta saudade que se fosse listar aqui precisaria de mil e uma páginas.
E segue a definição de Saudade:
Por Dr. Rogério Brandão
Médico oncologista clínico
RC Recife Boa Vista D4500
“Médico cancerologista, já calejado com longos 29 anos de atuação profissional, com toda vivência e experiência que o exercício da medicina nos traz, posso afirmar que cresci e me modifiquei com os dramas vivenciados pelos meus pacientes.
Dizem que a dor é quem ensina a gemer.
Não conhecemos nossa verdadeira dimensão, até que, pegos pela adversidade, descobrimos que somos capazes de ir muito mais além. Descobrimos uma força mágica que nos ergue, nos anima, e não raro, nos descobrimos confortando aqueles que vieram para nos confortar.
Um dia, um anjo passou por mim…
No início da minha vida profissional, senti-me atraído em tratar crianças, me entusiasmei com a oncologia infantil. Tinha, e tenho ainda hoje, um carinho muito grande por crianças. Elas nos enternecem e nos surpreendem como suas maneiras simples e diretas de ver o mundo, sem meias verdades.
Nós médicos somos treinados para nos sentirmos “deuses”. Só que não o somos! Não acho o sentimento de onipotência de todo ruim, se bem dosado. É este sentimento que nos impulsiona, que nos ajuda a vencer desafios, a se rebelar contra a morte e a tentar ir sempre mais além. Se mal dosado, porém, este sentimento será de arrogância e prepotência, o que não é bom. Quando perdemos um paciente, voltamos à planície, experimentamos o fracasso e os limites que a ciência nos impõe e entendemos que não somos deuses. Somos forçados a reconhecer nossos limites!
Recordo-me com emoção do Hospital do Câncer de Pernambuco, onde dei meus primeiros passos como profissional. Nesse hospital, comecei a freqüentar a enfermaria infantil, e a me apaixonar pela oncopediatria. Mas também comecei a vivenciar os dramas dos meus pacientes, particularmente os das crianças, que via como vítimas inocentes desta terrível doença que é o câncer.
Com o nascimento da minha primeira filha, comecei a me acovardar ao ver o sofrimento destas crianças. Até o dia em que um anjo passou por mim.
Meu anjo veio na forma de uma criança já com 11 anos, calejada porém por 2 longos anos de tratamentos os mais diversos, hospitais, exames, manipulações, injeções, e todos os desconfortos trazidos pelos programas de quimioterapias e radioterapia.
Mas nunca vi meu anjo fraquejar. Já a vi chorar sim, muitas vezes, mas não via fraqueza em seu choro. Via medo em seus olhinhos algumas vezes, e isto é humano! Mas via confiança e determinação. Ela entregava o bracinho à enfermeira, e com uma lágrima nos olhos dizia: faça tia, é preciso para eu ficar boa.
Um dia, cheguei ao hospital de manhã cedinho e encontrei meu anjo sozinho no quarto. Perguntei pela mãe. E comecei a ouvir uma resposta que ainda hoje não consigo contar sem vivenciar profunda emoção.
Meu anjo respondeu:
- Tio, disse-me ela, às vezes minha mãe sai do quarto para chorar escondido nos corredores. Quando eu morrer, acho que ela vai ficar com muita saudade de mim. Mas eu não tenho medo de morrer, tio. Eu não nasci para esta vida!
Pensando no que a morte representava para crianças, que assistem seus heróis morrerem e ressuscitarem nos seriados e filmes, indaguei:
- E o que morte representa para você, minha querida?
- Olha tio, quando a gente é pequena, às vezes, vamos dormir na cama do nosso pai e no outro dia acordamos no nosso quarto, em nossa própria cama não é?
(Lembrei minhas filhas, na época crianças de 6 e 2 anos, costumavam dormir no meu quarto e após dormirem eu procedia exatamente assim.)
- É isso mesmo, e então?
- Vou explicar o que acontece, continuou ela: Quando nós dormimos, nosso pai vem e nos leva nos braços para o nosso quarto, para nossa cama, não é?
- É isso mesmo querida, você é muito esperta!
- Olha tio, eu não nasci para esta vida! Um dia eu vou dormir e o meu Pai vem me buscar. Vou acordar na casa Dele, na minha vida verdadeira!
Fiquei “entupigaitado”. Boquiaberto, não sabia o que dizer. Chocado com o pensamento deste anjinho, com a maturidade que o sofrimento acelerou, com a visão e grande espiritualidade desta criança, fiquei parado, sem ação.
- E minha mãe vai ficar com muitas saudades minha, emendou ela.
Emocionado, travado na garganta, contendo uma lágrima e um soluço, perguntei ao meu anjo: – E o que saudade significa para você, minha querida?
- Não sabe não, tio? Saudade é o amor que fica!
Hoje, aos 53 anos de idade, desafio qualquer um dar uma definição melhor, mais direta e mais simples para a palavra saudade: é o amor que fica!
Um anjo passou por mim…
Foi enviado para me dizer que existe muito mais entre o céu e a terra, do que nos permitimos enxergar. Que geralmente, absolutilizamos tudo que é relativo (carros novos, casas, roupas de grife, jóias) enquanto relativizamos a única coisa absoluta que temos, nossa transcendência.
Meu anjinho já se foi, há longos anos. Mas me deixou uma grande lição, vindo de alguém que jamais pensei, por ser criança e portadora de grave doença, e a quem nunca mais esqueci. Deixou uma lição que ajudou a melhorar a minha vida, a tentar ser mais humano e carinhoso com meus doentes, a repensar meus valores.
Hoje, quando a noite chega e o céu está limpo, vejo uma linda estrela a quem chamo “meu anjo, que brilha e resplandece no céu. Imagino ser ela, fulgurante em sua nova e eterna casa.
Obrigado anjinho, pela vida bonita que teve, pelas lições que ensinastes, pela ajuda que me destes.
Que bom que existe saudades! O amor que ficou é eterno”.
“Por onde quer que eu vá vou te levar para sempre”.